Archive for the Lamego Category

"Ilustres de Lamego" & outros

Publicado em A. Almeida Fernandes, Biografias, Britiande, Lamego às Dezembro 24, 2006 por Nuno Resende

A propósito do lançamento do livro “Ilustres de Lamego” (ed. Câmara Municipal de Lamego, 2006) da autoria de Armando Rica e Fernando Cabral – obra ligeira sobre uma infíma parte dos notáveis naturais ou ligados a Lamego, aqui fica uma sugestão de visita: o site TRIPLOV, gerido por Maria Estela Guedes, também ela notável escritora, natural de Britiande (consulte aqui). Entre vários artigos, trabalhos literários e científicos, algumas bases de dados bibliográficas, de entre as quais destaco a que refere a A. Almeida Fernandes, ligado ao Montemuro por inúmeras razões (na minha opinião o seu primeiro e único historiador).

Movimento&medição: dicionário dos caminhos de Montemuro III

Publicado em Abel Botelho, Alagoa de D. João, Arouca, Aveloso, Lamego, Talegre, Tendais às Novembro 21, 2006 por Nuno Resende

(Aveloso – Tendais) © Nuno Resende


…fastidiento e mal seguro peregrinar pela aspereza e a
solidão…

Abel Botelho, “Mulheres da Beira”, 1898

A FRITADA, de Abel Botelho. Este conto, incluído na colectânea intitulada “Mulheres da Beira” (publicada pela primeira vez em 1888), tem como cenário principal a aldeia de Aveloso, da freguesia de Tendais. É uma viagem por vários planos e espaços: o de uma certa consciência social que o autor quis argumentar através das personagens que criou, o de uma imagem da serra grandiosa e estéril, subitamente acordada e atordoada pela chegada dos gados transumantes, fenómeno hoje extinto. A imagem de uma aldeia sombria, triste e pobre, onde os senhores da Casa Grande deixavam entrever o modelo de poder que Botelho repudiava para o País, e a súbita chegada dos gados com enfeites multicores vindos cordilheira da Estrela, deve ter suscitado no autor uma profunda impressão, pela forma como se demora na descrição minuciosa dos pormenores, deixando de fora, com certeza propositadamente, a descrição do Cortejo e da Família Real entrando em Lamego. Por isso, o seu espírito realista e positivista transformou o que poderia ser apenas mais uma novela social num impressionante documento histórico e uma miscelânea de apontamentos geográficos e etnográficos. Conhecedor, e com certeza frequentador dos caminhos da região (Botelho casara com uma senhora da nobreza de Cinfães tendo permanecido algum tempo em Arouca onde fizera prospecções geográficas a serviço do Exército), o escritor relatou minuciosamente vários percursos todos longe da ficção, dos quais se destaca o de Lamego a Aveloso, espinha dorsal da acção, e que atravessa o maciço de Montemuro. Impensável, pois, que A. Botelho nunca houvesse calcorreado os planos que descreve, os picos e planaltos da serra, ou apenas o tivesse feito uma única vez. As suas anotações de locais, como a Alagoa de D. João, o Talegre, a enumeração que faz de pontos de orientação e as distâncias que parece conhecer de forma precisa (como as léguas que separam Aveloso de Tendais) fazem de “A Fritada” quase um estudo minucioso das relações sociais e de espaço privilegiados dos viajantes pela serra. © Nuno Resende

Movimento&medição: dicionário dos caminhos de Montemuro I

Publicado em Abarcas, Lamego, Rui Fernandes, Viterbo, burel às Novembro 18, 2006 por Nuno Resende
ABARCAS. “Vestem burel e calçam abarcas” apontava, em 1532, Rui Fernandes, no seu tratado sobre o compasso de Lamego, sobre a indumentária dos habitantes do Montemuro. Como seriam as abarcas ou avarcas? Segundo Viterbo, esta “espécie de calçado rústico”, compunha-se de “uma sola, e alguns pedaços de couro crú, atados com cordéis”. E acrescentava, como bom conhecedor das serras e do clima da Beira (onde nasceu e onde viveu maior parte da sua vida), que este tipo de calçado “he muito acommodado para andar por caminhos fragosos, e montes cheios de neve”(1). As abarcas seriam, portanto, ainda usadas nos finais do século XVIII e não surpreende que a sua utilização perdurasse até ao século seguinte, quando a moda, (como os hábitos da civilização, ou mesmo os ideais políticos), vão fazendo a sua lenta introdução na serra. São portanto um dos mais antigos registos do vestuário das gentes serranas do Montemuro. Nota 1: VITERBO, tomo I, p. 25.© Nuno Resende NOTA: em castelhando “abarcas” são um tipo de sandália. Veja-se aqui.

Nossa Senhora dos Remédios, Festas de Lamego 2004

Publicado em Abel Botelho, Aveloso, Lamego, Romarias, Virgem dos Remédios às Setembro 7, 2004 por Nuno Resende

Agora que no encontramos em plena celebração das festas de Nossa Senhora dos Remédios, vem a propósito lembrar os romeiros que se deslocavam a Lamego, atravessando o Montemuro desde todos os pontos cardeais.
Abel Botelho, recorda-os n’ A Fritada, quando coloca uma das suas personagens a realizar uma das mais extensas travessias da serra, entre a aldeia de Aveloso, na freguesia de Tendais, e o «venerando burgo das cortes afonsinas». Seria de tal forma a afluência de romeiros que, em Setembro, as estradas e carreiros da serra se encheriam de gente que ia prestar homenagem àquela Senhora. Por certo a visão do escadório e da cidade seria, para alguns, – a habituados apenas à pacatez da aldeia – uma imagem que tão cedo se não apagaria da memória.
Mas quem fala na Senhora dos Remédios, não devia esquecer a Virgem da Lapa, umas léguas mais a Oeste. Uma e outra marcavam a paisagem e o calendário religioso da serra. E apesar de na Lapa o silêncio ser hoje uma constante, naquele que foi um dos principais santuários marianos de Portugal, ambas não foram esquecidas pelos literatos, como Abel Botelho ou Aquilino Ribeiro.
Dos livros que marcam a paisagem do Montemuro, continuaremos, doravante, a falar, abrindo para cada um deles uma pequena crónica literária.
Para não esquecer quem imortalizou estes e outros caminhos serranos.